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domingo, 15 de outubro de 2017

memórias literárias - 538 - UMA CONVERSA INTERESSANTE

UMA CONVERSA
INTERESSANTE
 

 
538
 
 
Um colega pastor, muito querido, convidou-me para tomar café. Transcrevo aqui a nossa conversa informal.
 
-----
 
 
- Que bom que o irmão aceitou o meu convite.
 
- O prazer é meu, pastor.
 
- Eu queria saber o porquê do irmão usar terno e gravata na igreja. Isto está tão fora de moda, tão antiquado!
 
- Porque eu estou de serviço, colega.
 
- Ah, sim. Mas eu também estou e não estou de terno ou gravata.
 
- Eu não disse que o irmão não está. Eu disse que EU estou. À propósito, o que vamos beber? Café com pães de queijo?
 
- Acho que é uma boa pedida.
 
- Então peça, por favor.
 
- Ei, rapaz!
 
- Por que chamou aquele rapaz? Chame este aqui ao lado, ou aquela mulher ali...
 
- Pastor Wagner, está brincando? Olhe o jaleco do menino. Ele trabalha aqui!
 
- Ah, então o irmão identificou quem aqui trabalha, não é mesmo? De fato fica mais fácil. Então solicite o nosso café.
 
Feito o pedido, a conversa continuou:
 
- Então, Pr. Wagner, não é o terno que faz o pastor, assim como não é o hábito que faz o monge!
 
- Sim, mas O VESTEM!
 
Meu amigo riu-se.
 
- Sim, colega, estamos à serviço de Deus. Assim como eu espero achar um médico de jaleco no hospital, um bombeiro de farda no serviço e uma camareira com o devido uniforme, a igreja de Deus espera ver em seu pastor alguém que enalteça o trabalho que realiza, que se identifique como um executivo à serviço. Foi por o rapaz estar com fardamento de serviço que o irmão facilmente o identificou e pediu o nosso café.
 
- Mas, Pastor Wagner, isso é besteira! Não é a roupa que faz isso! Nós não temos batinas ou coisas similares! Podemos servir a Deus de qualquer maneira, com qualquer vestimenta! Deus não olha para a aparência!
 
- Colega, não está em xeque servir ou não a Deus. Também não está em questão a veste e não o coração. Está em xeque a comissão que recebemos e a identidade que imprimimos no trabalho do Senhor. Igrejas têm ministros e estes estão de plantão; devem ter a distinção, a cortesia e o cuidado de assim se apresentarem. O irmão já viu um juiz em serviço do tribunal com bermudas e chinelões?
 
- Nunca!
 
- O irmão já viu um general de guerra em treinamento ou em combate com roupas de dormir, exceto num ataque inusitado?
 
- Não!
 
- Pois bem. Assim como esperamos da sociedade uma valorização dos serviços, das profissões, e uma encarnação da vocação através da identidade de serviço, assim uma igreja que é pastoreada por alguém consciente há de ter um ministro que se identifique como ministro, que se valorize como ministro em serviço.
 
- Mas não podemos fazer isso com roupas comuns? Não podemos usar camisetas, chinelos, tenis e calções?
 
- A pergunta não é se podemos, mas se DEVEMOS. Há alguns dias vi um pastor de sandálias havaianas, bermuda e camiseta sem mangas, no púlpito. Que mensagem um obreiro assim passa? De seriedade naquilo que faz? De crença real de que aquilo é um culto a Deus?
 
- Mas a igreja dele está cheia e a sua vazia!
 
- Colega, é assim que o irmão julga o serviço do Senhor? Somos animadores de auditório? Somos mercadejadores da Palavra? Ainda confio no que Deus fazia no passado: Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar (At 2:47). Não somos nós que convertemos pessoas, mas o Espírito Santo. Não é baixando o padrão que encherei a igreja com salvos.
 
- Podemos cultuar a Deus em qualquer lugar e em qualquer veste!
 
- Não há dúvidas. Mas experimente analisar os critérios para o serviço de Deus no velho testamento. Entravam os sacerdotes e oficiais do templo de qualquer jeito para cultuar? Jamais! Deus fizera-lhes, inclusive, recomendação das vestes!
 
- Mas isso foi no velho testamento! O sacerdócio não foi continuado!
 
- Não tenha dúvidas. Mas o Senhor é o mesmo e o princípio da separação e santidade mantém-se. Assim está escrito: Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra incorrupção, gravidade, sinceridade, (Tt 2:7). Também lemos: Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza. (1Tm 4:12). Para completar, Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus. (1Co 4:1).
 
- Eu não concordo!
 
- Não há problemas, colega. Mantenha-se como está e eu me manterei como estou.  O irmão não me verá num casamento, num velório, num culto dominical ou numa visita oficial com vestes informais, exceto em emergências, pois creio estar em serviço, creio representar um ministério em ação, com seriedade e com a função de executivo do Senhor. Se o irmão sente-se bem como está e não tem problemas de consciência, ou se os meus argumentos não lhe convencem, fique à vontade.
 
- Então estamos certos assim, Pastor Wagner? Ambos estamos certos, não é?
 
- Ambos estarem certos é outra questão que não está resolvida, colega.
 
- Ah, Pastor Wagner, o irmão não tem jeito mesmo! (risos).
 
- Vamos tomar o nosso café, que já está a esfriar!
 
- Viva!
....
 

Wagner Antonio de Araújo

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

memórias literárias - 537 - O SEU DESTINO

O SEU
DESTINO
 
 
537
 
João Diabo. Esse era o nome de seu pai. Um bandido de alta periculosidade. Diziam que sua faca era do capeta. Com ela matara mais de setenta homens. Assaltos, roubos, estupros, tudo isso. Ele, o Joãozinho, era fruto de um estupro destes. Sua mãe, pobre mulher, humilhada pelo infeliz, tentava criar o menino da melhor maneira que podia. Lavava roupas para fora, fazia diárias de limpeza e não deixava faltar o pão e a roupa. Luxo isso não tinha.
 
No bairro a fama de João Diabo era terrível. Todos tinham uma história pra contar. E quando contemplavam o pequeno Pedrinho não tardavam a dizer: Pedrinho Capeta. "Vai seguir o destino do pai; por que a mãe não abortou essa peste?" O menino crescia triste, aborrecido, cônscio de que era fruto de uma desgraça. Sua mãe, contudo, inspirava-lhe outros sentimentos: tinha-a como salvadora, pois se não fosse a sua coragem e determinação, o seu fim teria sido uma coletagem imediata.
 
Na escola era temido. E os moleques malvados se aglomeravam junto a ele, dizendo: "Pedrinho, você tem que seguir o seu destino. Você será do mal, venha conosco!" Pedrinho sentia vontade de vingar-se de todos que lhe apontavam o dedo. Às vezes sentia desejo de tomar uma faca da cozinha de sua mãe e matar a todo aquele que o insultava. Mas algo dentro dele dizia: "Ninguém será dono do meu destino". E assim seguia, não sem lutas e conflitos. Batia e apanhava na porta da escola, levava suspensão na diretoria, sua mãe chorava muito por não ter bom resultado nos corretivos. Mas assim ele seguiu.
 
Um dia, à porta do colégio, os Gideões Internacionais, entidade internacional que distribuia novos testamentos, estacionou uma kombi na frente do colégio. Alguns homens davam de presente um exemplar do novo testamento, salmos e provérbios aos estudantes. Ele pegou um e saiu a ler. Encontrando o encarte que dizia: "Está triste? Leia tal coisa", imediatamente foi procurar. No início teve dificuldades, mas aos poucos conseguiu identificar o que significavam aqueles números e letras. E um novo mundo se abriu para ele. "Eu sou o dono do meu destino; não terei que ser como meu pai".
 
Pedrinho converteu-se ao evangelho. Fê-lo sozinho, no páteo do colégio, com o seu livrinho em mãos. Sua transformação foi evidente. Logo descobriu uma igreja onde se pregava o Novo Testamento e foi conhecê-la. Havia classe de adolescentes e ele identificou-se com eles. Sua mãe, surpresa, viu no menino um novo filho, um menino diferente do que o seu destino prometia. Pedrinho foi batizado e tornou-se um crente em Jesus Cristo. Logo conduziu mamãe ao Senhor e passou a partilhar com os colegas a mensagem de Cristo.
 
Quando tinha dezesseis anos, pediu à mãe para visitar o estuprador que lhe gerara. A mãe, perplexa, ficou muito entristecida. Mas tamanha foi a insistência, que lhe indicou a cadeia e o nome do bandido. Pedrinho foi até lá, acompanhado de uma tia. À porta da penitenciária recebeu a notícia: "Pedrinho, o bandido não quer recebê-lo; disse que você não é gente, mas um erro e avisou-o para nunca mais procurá-lo, senão ele mandará matá-lo". Imaginem a tristeza deste menino junto à tia. Até o carcereiro comoveu-se. Este, imaginativo, disse: "Escreva uma carta e eu lerei para o João Diabo". O garoto mais que depressa conseguiu lápis e papel e escreveu o seguinte:
 
"João Diabo, aqui é o Pedrinho, fruto de sua violência a uma mulher decente. Como filho de seus lombos eu deveria seguir a mesma sina, andar nos mesmos passos de papai. Contudo eu descobri que quem faz o destino somos nós mesmos e que não tenho o menor interesse em seguir pelo caminho que o senhor seguiu. Pai, sou de Cristo e quero que saiba que ainda há uma chance para o senhor: Deus mandou Jesus para ser punido em seu lugar. Receba-o em seu coração e seja um novo homem. Não seja mais João Diabo, mas João de Cristo. E se um dia precisar de mim e quiser me ver, estarei aqui para lhe acolher. Com respeito, seu filho Pedrinho".
 
Pedrinho soube que seu pai nem quis ouvir a carta. Mas o carcereiro guardou-a. Dois anos depois, quando João Diabo morreu numa rebelião, a carta foi colocada em seu caixão, seguindo com ele para a campa fria. Pena que não seguiu em seu coração.    
 
Com Pedrinho cumpriu-se o que a Bíblia diz:
 
A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai levará a iniqüidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele. (Ez 18:20)
 
Pedrinho fez o seu próprio destino. Decidiu que não seria réplica do próprio pai. Ele não estava fadado a cumprir uma sina, a seguir o chamado do sangue. Pedrinho tornou-se um homem de bem. Passou a ser conhecido como Pedro de Cristo, em antagonia com o estuprador que lhe gerara, João Diabo. Pedro tornou-se um homem feliz e realizado, cheio das dádivas de Deus.
 
E lá no Céu, onde Jesus está, quando ouviu Pedrinho dizer: "Eu te escolhi, Senhor Jesus", foi como se ecoasse novamente uma frase que o Senhor já dissera quando por aqui peregrinara em Sua vida messiânica:
 
Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda. (Jo 15:16)
 
Que dádiva incomparável a do Senhor, que nos dá a bênção de não sermos escravos do fatalismo e do destino! Podemos fazer diferente, podemos seguir caminhos melhores do que os de nossos pais! Porém, ainda que livres neste sentido, foi a graça de Deus que operou eficazmente na vida do rapaz, que não foi morto através de um aborto, que não perdeu a vida nas brigas da escola e que não seguiu ao chamado do sangue, que lhe inclinava para a vingança.
 
E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Rm 8:28)
 
Se o leitor é daqueles que acham que não há mais jeito para si, lembre: você faz o seu destino. E se escolher seguir a Cristo, saiba: Ele já o escolheu primeiro. Glorifique-o com amor e viva com fervor essa vida maravilhosa! Não mais João Diabo, mas Pedro de Cristo!
 
Wagner Antonio de Araújo

05/10/2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

memórias literárias - 536 - EU TINHA QUE VIR ...

EU TINHA
QUE VIR...
 

 
536
 
Uma cena chamou a minha atenção no aeroporto, enquanto aguardava a família que viria me buscar. Uma senhora saiu pelo desembarque aos prantos. Foi amparada por familiares que vieram buscá-la. Certamente um familiar muito querido ou amigo próximo teria morrido. Dor como esta somente quem já passou pode avaliar. Eu já passei. Sei o quanto é difícil. Pessoas que moram distantes, pessoas que estão geograficamente separadas, há tão pouca oportunidade de convívio pessoal!
 
Lembrei-me de um episódio do antigo seriado OS PIONEIROS. Uma senhora celebrava os seus aniversários todo ano, mas, para a sua decepção, os filhos, que moravam distantes (e as distâncias eram maiores no século dezenove, com estradas ruins nos Estados Unidos) jamais vinham para a celebração. Um dia a mulher conversou com o pastor e pediu para celebrar antecipadamente o seu próprio velório. O ministro da igreja, atônito, quis saber o porquê. Explicada a situação, concordou com o evento e convidou a igreja para a reunião. Antes, porém, ela enviara telegramas de notificação do falecimento aos parentes.
 
Quando a cerimônia teve início os familiares chegaram. Filhos, noras, netos, todos. Então, diante da sala repleta, ela deixa o quarto onde escondia-se e sai viva e bem vestida. Os filhos surpreendem-se e ralham com ela pelo blefe. Ela, então, explica: "Filhos, foi a única forma de reuni-los comigo; eu de fato irei morrer; mas por que vir no meu sepultamento, quando eu não terei mais a oportunidade de vê-los? Vocês estão aqui hoje e já é o meu presente de velório; celebremos o meu aniversário!" O episódio termina em lágrimas e em declaração de amor pela matriarca.
 
Nós fazemos de tudo para participar de um velório. Deixamos as atividades, pedimos dispensa do trabalho, ausentamo-nos das aulas, interrompemos as férias, tudo para cumprir o compromisso social com o defunto e demonstrar que ele era importante e relevante. Queremos que a família saiba. Mas este tipo de valor potencializado no ato do velório poderia ser antecipado para a prometida visita que nunca se fez. Poderia ser vivido com a pessoa ainda apta a alegrar-se com a nossa presença. Poderia ser desfrutada com flores de verdade entregues na mão e não flores às toneladas que lhe servirão de mortalha. Se perguntassem para uma pessoa a sua preferência, se gostaria de um velório cheio de gente ou de amigos e parentes mais próximos, certamente ouviriam-lhe dizer que gostariam de ter as pessoas presentes em vida. Depois de morta a pessoa nada vê e não saberá do suposto afeto e consideração.
 
Flores em vida desabrocham. Flores que enfeitam a morte apodrecem. Algumas vezes só poderemos dar as segundas, mas, se ainda tivermos chances, que entreguemos os ramalhetes perfumados aos queridos que estão vivos.
 
Wagner Antonio de Araújo

04/10/2017

memórias literárias - 535 - CONTRA OU A FAVOR?

CONTRA
OU
A FAVOR?

 
535
 
É muito raro encontrarmos pessoas de opinião íntegra, gente cujo comportamento não se altera com as mudanças temporárias trazidas pelas circunstâncias. Geralmente se é contra alguma coisa até que alguém afague, seja gentil, que apresente algo que altere a sua guarda, a sua defensiva. A sedução é uma constante desde o tempo da serpente e do casal Adão e Eva!
 
Na fé cristã vivemos esta realidade de forma bastante evidente.
 
Somos contra alguma falsa doutrina, estruturamos uma série de argumentos que comprovam a sua falsidade. Mas num belo dia somos surpreendidos com uma coisinha boa aqui, outra ali, coisas boas nas planícies das heresias e dos erros. A nossa guarda cede e passamos a tecer elogios ao que antes condenávamos. Daqui há pouco nos tornamos coniventes com o que considerávamos mal e adeus defensores da sã doutrina....
 
Somos contra a fornicação, o sexo fora do casamento, o namoro com relacionamentos físicos concretizados. Pregamos e apresentamos bases sólidas na Palavra de Deus contra isto e defendemos a família tradicional. Mas num belo dia alguém de nossa casa ou de nossa intimidade fornica e gera uma criança. Aquela contrariedade toda torna-se doce, consideramos que nem é tão importante o casar-se desde que haja amor e respeito. E então a fortaleza de nossa opinião sucumbe ao grito que o sentimento dá junto a muralha de nossa convicção. E já não somos mais contrários aos relacionamentos sem casamento. Tudo era uma questão do quanto isto nos afetava...
 
Somos contra a idolatria. Temos resposta bíblica consistente com relação a esse assunto. Até que um dia um padre bonzinho, dócil, que usa versículos e canta as nossas músicas ocupa a mídia. Ele é mais gentil do que um pastor, é cativante e busca o amor. Então já não temos hostilidade ao vê-lo proclamar a idolatria, a ter imagens de escultura e praticar o sacrifício não cruento da missa. Já não fazemos caso do purgatório, das indulgências ou da salvação pelas obras. Para nós a bondade daquele ministro sobrepuja a convicção que antes esposávamos. E está implantado o ecumenismo interior.
 
Somos contra o carismatismo. Temos postura conservadora. Cremos que o Espírito Santo habita no coração de todo crente desde o dia da conversão e que não há sinais externos indispensáveis para tal realidade, uma vez que o maior deles é o fruto do Espírito, a transformação de vidas. Mas alguém de nosso convívio é tocado por esta chama e passa a praticar os supostos dons de sinais. Ele muda de vida e torna-se mais dedicado. Logo nós nos sentimos vazios e interiormente desejamos o mesmo fogo. Em pouco tempo abrimos mão dos conceitos que tínhamos sob o pretexto de desejar o mesmo poder. E sepultamos qualquer convicção tradicional no túmulo do passado, pois fomos seduzidos pelo empirismo emocional. Nasce um novo carismático.
 
Somos contra a corrupção. Vociferamos contra os políticos que roubam o erário público. Insultamos publicamente as autoridades corruptas. Até que alguém de nossa estima e que nos é próximo torna-se vereador, assessor, deputado, senador, e nos visita com dádivas estatais. Ele sempre foi alguém de nossa confiança e possui recursos que podem nos ajudar. Ele nos dá um cargo para o filho desempregado, uma secretaria para a esposa, uma bolsa de estudos para algum membro da igreja, um terreno onde construir um templo. Aos poucos já não chamamos de corrupção o uso do dinheiro público com finalidades privadas ou religiosas, mas bênçãos públicas que o Senhor nos concede. O pejo já não está presente quando sabemos que a verba veio de obras públicas não realizadas, de eventos que não consumiram todo o recurso, de indicações que tiraram a chance dos verdadeiros profissionais que poderiam ocupar as vagas. E está aí um novo usuário da corrupção.
 
Gosto de ver o Apóstolo Paulo a dizer:
 
Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não. (2Co 1:18)
 

Paulo, ao ver Pedro agir de forma dúbia, querendo viver como gentio na presença destes, mas como judeu quando os conterrâneos estavam presentes, teve que aguentar o dedo em riste do intransigente colega de apostolado:
 
E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível.
Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão.
E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.
Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus? (Gálatas 2.11-14)

Infelizmente a grande questão de opinião não é qual seja ela, mas quanto ela custa. Se foi construída em cima de argumentos sólidos e que satisfaziam a razão pessoal e a fé, se foi feita com a mais pura consciência da verdade e se foi defendida ao longo de toda a vida, por que mudá-la? Ou não éramos convictos ou então nos corrompemos. Daí funciona a frase: "Todo homem tem seu preço; cabe a cada um determinar o seu".

Queira Deus que aqueles que fundamentaram as suas opiniões e comportamentos na solidez das Escrituras Sagradas e que mantiveram-se fiéis às suas interpretações de vida não sucumbam e não se vendam diante das circunstâncias voláteis dos acontecimentos.

Afinal, em Deus temos alguém que é fiel, mas não apenas fiel: alguém que é JUSTO.

Mas o justo viverá da fé; E, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele. (Hebreus 10.38)

Wagner Antonio de Araújo
04/10/2017

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

memórias literárias - 534 - SOLIDÃO E SOLITUDE

SOLIDÃO E
SOLITUDE
 

 
534
 
Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Que isto lhes não seja imputado. (2Tm 4:16)
 
E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mc 15:34)
 
Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo. (Jo 16:32)
 
Sentir-se só; quem já não enfrentou essa circunstância? No mundo em que vivemos isto é o que de mais comum existe.
 
O mais interessante é que, quanto mais nos aprofundamos nas tecnologias de comunicação mais nos distanciamos dos outros seres humanos e, quiçá, do próprio Deus.
 
Quando o transporte era precário e difícil, muitas vezes impossível, só nos restava um telefonema. Quando nem este estava disponível, então a carta. Ah, e quanto bem tais eventos faziam! Há quem guarde a sete chaves as cartas de um amor, de um familiar, de um amigo querido, cartas cujo teor são como pepitas d'ouro!
 
Nestes tempos modernos, entretanto, a distância multiplica-se na proporção de seu próprio desaparecimento. Veja-se o alto índice de suicídios: geralmente são pessoas que utilizam-se dos celulares, dos computadores, das comunicações em redes sociais, mas que, infelizmente, estão mais sozinhas do que nunca!
 
Isto porque gostamos de algo que seja especialmente feito para nós, não para as massas. Queremos ouvir uma voz a nos falar, algo que foi dito só a nós mesmos. Queremos uma linha, um telefonema, um áudio de whatsapp, um e-mail, um sinal de que somos importantes para aqueles a quem julgamos relevantes para conosco.
 
Contudo, em lugar disto, recebemos toneladas de mensagens, de correntes, de figurinhas, de carinhas a sinalizar sorrisos, frases de efeito, florezinhas abertas e outras que se transformam em passarinhos etc. São coisas artisticamente perfeitas, verdadeiras flores plásticas, tão belas e tão mortas na fonte! Ao final elas não nos dizem absolutamente nada; pelo contrário, elas nos aborrecem! Em troca delas gostaríamos de um mero "olá, tudo bem?" ou "um abraço", o que nos seria muito mais vivo e humano.
 
A solidão é a sensação de que não somos importantes para ninguém. A nossa dor, a nossa alegria, a nossa decisão, os nossos sentimentos, nada disso a ninguém tem importância. A dor de um desprezo, de um esquecimento, de um deixar de lado é algo que cavoca até as entranhas d'alma. Aos poucos nos sentimos exauridos de forças e a exaustão pode levar ou à revolta ou ao caos emocional.
 
Cristãos sentem-se sós também. Citados no início, temos o Apóstolo Paulo a sentir extrema solidão e injustiça quando viu-se abandonado pelos próprios cristãos em seu julgamento de instância maior. Sentiu-se desamparado, abandonado, solitário. Citei também Cristo, o nosso Salvador. Ele, no alto de toda a sua estatura de Deus-Homem, restrito por decisão própria de Seus poderes e glória, sentiu profundo desamparo e solidão no alto da cruz de ignomínia. Aqueles instantes sem a luz e a glória do Pai, com quem viveu desde que eternidade existe, foram-lhe cruéis o bastante para fazer soar o mais dorido clamor divino: "Por que me desamparaste?"
 
Sabemos que Sua dor foi vicária. Ele sofreu em nosso lugar. O castigo que nos traz a paz estava sobre Ele. Assim que expirou encontrou-se com o Pai. Andou no Paraíso, anunciou aos mortos a Sua vitória e foi assunto ao Céu. Jesus nunca esteve e nunca estará só, senão naquele ato substitutivo em nosso favor.
 
Encontramo-lo a tecer comentário sobre isso: "Nunca estou só, porque o Pai está comigo". Jesus não precisava do calor e do afeto de seus imperfeitos apóstolos e interesseiros seguidores. Os que dele se aproximavam o faziam para obter favores, pães multiplicados, cura das vistas, cura das pernas, pés, braços e mãos. Foi mui raro uma Maria que sentou-se aos pés do Senhor pelo simples prazer de privar de um tempo especial com Ele, sem querer nada em troca, exceto o que aprendia. O Senhor tinha prazer nas criancinhas que se alvorossavam sobre Ele, com toda a informalidade e entusiasmo típico dos que ainda não haviam aprendido a hipocrisia. Ele as tomava no colo, Ele as abençoava e ralhou com os apóstolos que queriam impedir o sagrado encontro de pequeninos homens com o Seu Grande Idealizador, encontro de legítima motivação de amor e prazer, sem interesses outros.
 
Este Jesus que sentiu solidão e que nunca esteve só, exceto no ato vicário de sacrifício por nós, experimentava, contudo, momentos privativos escolhidos e preparados com muita perfeição. Eram as madrugadas, únicos momentos onde a demanda popular não lhe exigia dedicação. Naquelas brisas noturnas tinha o Senhor a sua SOLITUDE, que não é solidão, mas escolha pessoal de desfrutar a sós a íntima comunhão com o Seu Pai. Certamente que privava também de momentos especiais Consigo mesmo, uma vez que sempre sabia o que fazer e quando fazer. "Sempre faço o que Lhe agrada", dizia Ele.
 
A resposta para a solidão avassaladora das redes sociais, dos e-mails, dos relacionamentos plásticos e dos encontros por interesse, que nada satisfazem a alma, que trazem tantos vazios existenciais, é a escolha racional e espiritual de primar pela amizade com Deus, de momentos a sós com o Criador, de instantes profundos de adoração íntima e de comunhão profunda com Cristo. Não há solidão que resista à solitude de uma alma em comunhão com o Criador.
 
Que tal o leitor amigo, que gastou tempo a ler o meu artigo, analisar os seus relacionamentos e verificar a veracidade do que afirmo? Enquanto escrevo há muitas mensagens que chegaram ao seu celular e e-mail, talvez alguns telefonemas, mas o vazio e a solidão não foram atingidos e aquilo que mais queria não veio, a atenção e a sensação de ser realmente especial.
 
Faça o propósito de buscar ao Senhor em solitude determinada. Foi Ele mesmo quem nos ensinou:
 
Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente. (Mt 6:6)
 
Que Deus nos abençoe.
 
Wagner Antonio de Araújo

28/09/2017

memórias literárias - 533 - EFÉSIOS - A IGREJA - CORPO DE CRISTO - 2a. MENSAGEM

A EPÍSTOLA
DE PAULO
AOS EFÉSIOS

Por Wagner Antonio de Araújo,
Pastor da
Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba,
São Paulo, Brasil

2ª MENSAGEM

EFÉSIOS 1.3-14 –
NOVE BÊNÇÃOS
CONCEDIDAS

O TEXTO – Efésios 1-3-14

3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo,
4 assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor

5 nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,

6 para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,

7 no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,

8 que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência,

9 desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo,

10 de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra;

11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade,

12 a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo;

13 em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido
, fostes selados com o Santo Espírito da promessa;

14 o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória.


INTRODUÇÃO

Elaine e eu formávamos um casal sem filhos. Orávamos e pedíamos ao Senhor para nos conceder herdeiros que nos fizessem companhia, a quem pudéssemos criar e a quem deixássemos o patrimônio de nossa existência. Deus nos atendeu. Primeiramente deu-nos a Rutinha, nossa primogênita. Depois concedeu-nos o Josué, nosso garoto tão querido.

Os nossos filhos nasceram nus, sem pertence algum; não tinham roupas, nem objetos, nem armários, nem cama, nem nada. Nós, os seus pais, fizemos a provisão de tudo para o seu conforto e manutenção, juntamente com os presentes que ganhamos. Compramos móveis para o quarto, berço, roupas de cama, roupinhas para vesti-los, objetos de higiene, mamadeira, carrinho, enfim, tudo. Quando eles saíram da maternidade e chegaram em nossa casa já tinham a provisão necessária para o início da  vida. Como eles mudaram a nossa rotina!

Nesta semana Rutinha dormiu fora pela primeira vez, longe da mamãe. A vovó cuidou dela. Para nós, entretanto, a noite foi difícil: não conseguíamos sentir conforto com a ausência da filha amada. Tudo em casa lembrava a Rute. Quando a vovó a trouxe, o brilho voltou nos nossos olhos e a casa estava completa de novo.

Hoje queremos nos deter nos versos 3 a 14 do capítulo 1 de Efésios. Como sabem, Paulo, o Apóstolo, escreveu esta carta provavelmente no ano 62 da era cristã. Ele a escreveu da prisão em Roma, como Colossenses, Filipenses e Filemon. A carta deve ter circulado por várias igrejas da época e não foi escrita para combater nenhuma heresia, senão para vislumbrar tudo o que Deus nos concedeu em Cristo, transformando-nos em filhos adotivos dEle.

É justamente sobre isso que queremos falar.

Assim como Elaine e eu, Deus proveu o Céu, proveu os homens convertidos com coisas que os qualificaram para que vivessem como filhos do Pai Celeste. Assim como nós os geramos e deles cuidamos, o Pai proveu em Cristo uma série de coisas importantes, maravilhosas, estupendas, através das quais nos capacitou para a vida eterna, para a glória celestial, para o progresso eterno e para a salvação total e perfeita.

Gostaríamos de citar nove bênçãos da salvação em Cristo, da conversão, da vida eterna recebida através do arrependimento de pecados e da fé em Jesus.

I – NOS ABENÇOOU (“nos tem abençoado”, v. 3)

Deus é bendito e nós, que somos do Senhor, fomos abençoados pelo Seu Santo Nome. Como sobre nós repousa o Nome dEle, a presença dEle, então a Sua bênção também está sobre nós. Cristo em nós, Cristo em nosso coração, Cristo em nossa vida, somos contados como Seu povo, Sua igreja, Seus Filhos adotivos. Não há bênção maior do que essa!

II – NOS ESCOLHEU (“nos escolheu nEle”, v. 4)

Há duas verdades antagônicas e paradoxais nas Escrituras Sagradas. Uma é aquela que nos garante o livre arbítrio para fazer as nossas escolhas. E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida. (Ap 22:17) A outra, não menos importante, é a que afirma categoricamente que Deus tem direito de escolha e usa esse direito para escolher aqueles que serão por Ele salvos e recebidos. É isto que o texto diz.

Paulo afirma que Deus nos escolheu “antes da fundação do mundo”, isto é, antes de qualquer criação, antes do nosso nascimento, antes que tivéssemos feito alguma coisa para merecer esta dádiva.

Como harmonizar estas duas verdades? Como equilibrá-las? As tentativas são diversas. A polarização tem trazido enormes prejuízos para as igrejas. Muitos destacam o livre arbítrio e lançam por terra a verdade de que Deus nos escolheu por conta e por vontade própria, como afirma o texto. Outros, ignorando a verdade de que ao homem foi dado o direito de optar, de escolher, de receber ou de rejeitar, lançam a raça humana no determinismo absoluto de um Deus fatalista.

O melhor caminho é sabermos que a mensagem do Senhor nos é pregada visando a nossa conversão. Quando somos convertidos descobrimos que, muito antes de nascermos, antes da fundação do mundo, o nosso nome já era conhecido pelo Pai. Assim, o livre arbítrio e a predestinação dão as mãos de forma efusiva e festiva, celebrando com alegria a bênção da vida eterna. O crente diz: “Então Deus me amou antes da fundação do mundo? Eu já era conhecido dEle? Aleluia, Senhor! Eu não mereço, mas agradeço!”

Deus teve dois propósitos ao nos escolher.

O primeiro: sermos santos,  isto é, separados, consagrados, sem nos misturarmos com o mundo de onde viemos, com os seus valores, com a sua aparência, com as suas crendices. Esta santificação é fundamental na vida do escolhido de Deus. Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; (Hb 12:14)

O segundo: andarmos de forma irrepreensível, dando o testemunho de transformação. Não fomos escolhidos para uma vida folgada, sem compromisso, sem testemunho. Pelo contrário, os escolhidos têm o dever de serem bons pais, bons cônjuges, bons filhos, bons trabalhadores, bons cidadãos, bons pagadores, bons crentes, bons irmãos, bons em tudo!

III – NOS PREDESTINOU ( “nos predestinou” v. 5)

Assim como a eleição citada acima, ela salienta uma predestinação com um objetivo: “a adoção de filhos”. Lembro-me daquele querido irmão que não tinha filhos. Ao ver aquele bebê tão carente, tão necessitado e tão clemente, não teve dúvidas: o escolheu para que fosse seu filho. Ao recebê-lo e ao registrá-lo como seu, num ato forense, num ato cartorial, como o seu coração alegrou-se! Balbuciou ao pequeno: “Não tenha medo; de hoje em diante você será chamado de meu filho!” Oh, gloriosa beleza do amor de Deus! Ele nos predestinou para fazer de nós filhos Seus! Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; (Jo 1:12)

IV – NOS CONCEDEU ( “nos concedeu...para sermos ...” v. 6, 12)

Em Cristo foi-nos concedida a dádiva de sermos “para o louvor da glória de Sua graça”.  E o que isto significa?

Éramos pecadores inverterados, mortos e separados de Deus. O amor do Criador, contudo, nos alcançou no túmulo de nossa existência (conquanto vivos fisicamente, estávamos mortos espiritualmente). Ergueu-nos, atuou de forma miraculosa pelo Espírito Santo, convencendo-nos do pecado, da justiça e do juízo, e provocou em nós o novo nascimento, através do qual fomos feitos novas criaturas, novos nascidos. O resultado foi uma transformação radical e profunda. Um exemplo disto foi aquele homem de Gadara, absolutamente possesso e que vivia entre os sepulcros, machucado, nu e solto. Ao ser encontrado por Jesus teve a libertação cabal: mais de dois mil demônios o deixaram! O resultado para o homem foi a sua completa libertação, o vestir-se, o juízo perfeito, a paz e a calma. Os conterrâneos, perplexos com a mudança, viram o que Deus havia feito. Infelizmente usaram desse milagre para expulsar a Jesus (os porcos dos quais cuidavam haviam morrido). Mas a vida transformada deste libertado tornou-se louvor da glória de Sua graça! Ele tornou-se missionário no meio de sua família.

Cada um de nós, alcançado pelo Senhor, também foi transformado por Ele! Os que eram promíscuos tornaram-se santos no seu procedimento; os que xingavam limparam a sua boca; os que fumavam abandonaram esse vício; os que se embriagavam abandonaram a cerveja e o vinho; os que se dobravam aos ídolos passaram a ajoelharem-se apenas diante de Deus. E assim as mudanças são um testemunho magnífico de transformação, o que  promove entre os homens e anjos motivo de se dizer: “Bendito seja Deus por tão grande salvação”!


V – NOS REDIMIU ( “no qual temos a redenção” v. 7)

Na época do Apóstolo Paulo havia dois tipos de pessoas. Os cidadãos, aqueles que possuíam  todos os direitos legais e civis, e os escravos, que não tinham direito algum, que eram propriedade e patrimônio de alguém abastado. Quando alguém era comprado, a posse daquele escravo era transferida para o novo dono. Alguns eram comprados e alforriados, isto é, libertados para tornarem-se homens livres. Outros para serem escravos dos compradores.

Paulo usa a mesma linguagem para explicar que Jesus Cristo, pelo Seu precioso e inigualável sangue, derramado na cruz do Calvário, comprou-nos do poder de Satanás, que era o senhor de nossas vidas em pecado. Cristo libertou-nos do mal, do Inferno e da perdição. Ele nos comprou! Tirou-nos das mãos do tirano, das mãos do pecado e transportou-nos para o Seu Reino e para o Seu amor! As cordas que nos amarravam, as gaiolas que nos continham, os compromissos sob ameaças que nos impunha o maldito proprietário foram rompidos, pois Cristo pagou pela nossa libertação. Aleluia!

VI – NOS DERRAMOU ( “derramou abundantemente sobre nós...” v. 8)

A palavra “derramou” significa “sobejamente, abundantemente, mais do que poderia ser contido”. Lembro-me de nossa casa na roça, na Meia Légua, em Cambuí, Minas Gerais, onde eu passava anualmente pelo menos dois meses. Papai canalizara a água de uma mina, numa montanha próxima. O cano tinha duas saídas, uma para a pia da cozinha, dentro de casa, e a outra para a pia do tanque, do lado de fora. A força da água era tanta que, às vezes, o sabugo que servia de rolha, era expulso com violência, deixando vazar a água abundantemente. A água jorrava livremente (e não havia conta de água!)

Assim também Deus derramou sobre nós a “riqueza da sua graça”, isto é, dando-nos tudo gratuitamente em Cristo, o Amado, o Senhor, o remidor! E não deu pouco, milimetricamente contado; deu-nos “a transbordar”! Tudo o que recebemos, tudo aquilo de que fomos supridos, não é mérito nosso, é graça de Deus, é favor imerecido, é puro exercício de misericórdia de Deus! Essa graça não veio por medidas, mas ela está presente e se derrama, é abundante, está acima do que podemos conter! A graça nos salva, nos perdoa, nos assiste, nos enche de paz, nos dá a plenitude do Espírito, nos concede segurança, nos mostra o caminho a seguir, nos coloca oportunidades de amar, nos dá boca para testemunhar; enfim, a graça é tal que se derrama e influencia a todos que conosco convivem! “Preciosa graça de Jesus!” “Oh, profundidade das riquezas, tanto da sabedoria quanto da ciência de Deus!”

Tal graça abundante concede duas grandes dádivas para cada um de nós.

A primeira: torna-nos “sábios”, nos enche de sabedoria. O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução. (Pv 1:7)

A segunda é a “prudência”. Através dela podemos tomar decisões fundamentadas na razão, na certeza, na convicção espiritual, nos fundamentos do que é certo, e não daquilo que sentimos, que achamos, que desejamos. A prudência nos coloca os pés no chão. Ela nos faz gastar apenas o suficiente, dizer apenas o que é necessário, sentir apenas aquilo que é edificante, guardar apenas o que nos edifica.

VII– NOS DESVENDOU (“nos desvendou o mistério...” v. 9)

A graça de Deus desvenda aos nossos olhos e corações o grande propósito de Deus: fazer convergir em Cristo toda a criação, todas as criaturas, toda a história, todo o universo. Este é o propósito divino: centralizar em Cristo o mundo que através dEle foi criado. A plenitude dos tempos é o tempo certo, escolhido por Deus, para que Cristo viesse e se tornasse o Cordeiro de Deus, o reconciliador divino entre criador e criaturas.

Toda a criação confessará que Jesus Cristo é o Senhor. Todo o universo, todas as dimensões se submeterão à Sua autoridade e mostrarão que foi do agrado do Pai convergir em Jesus Cristo todas as coisas, quer as visíveis, quer as invisíveis. Ele é o Senhor da vida, da morte, da eternidade, do espaço, do tempo, do amor e da graça. E este reconhecimento começa conosco, que O recebemos como Senhor e Salvador de nossos corações, estendendo-se, no futuro, por uma confissão maciça desta verdade. E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Fp 2:11)

VIII– NOS FEZ HERANÇA ( “fomos feitos herança” v. 10)

Esta afirmação pode significar duas coisas.

A primeira delas diz respeito a tornar-nos parte de Sua própria herança, isto é, fez de nós propriedade Sua, tendo em vista que nos comprou do pecado e de Satanás, fazendo-nos Seus servos, mas, acima de tudo, Seus filhos. Tornamo-nos herança de Deus, parte de Seu patrimônio. Lá em casa dizemos: “O que é realmente nosso aqui somos nós, a nossa fé e os nossos filhos”. Os filhos são herança nossa indubitavelmente!

A segunda possibilidade é que nós nos tornamos “participantes desta herança”. Jesus Cristo, como Filho, é o herdeiro de todas as coisas criadas, quer as do Céu, quer as da Terra. Como proprietário de tudo, Deus deu a cada filho adotivo, a cada um que recebe a abundância e o derramamento desta graça, o direito de ter parte em tudo isso. Jesus reparte conosco a posse de todo o universo, pois em Cristo fomos feitos Seus irmãos e herdeiros com Ele de todas as coisas.

Que verdades maravilhosas e gloriosas! Somos a herança do Senhor e, igualmente, somos participantes de toda a herança de Jesus! Oh, Deus, não somos dignos! Oh, Deus, não há nada em nós que possa comprar tamanho amor e misericórdia! Como agradecer-Te?

IX – NOS SELOU ( “ fostes selados...” v. 13)

Nos dias do Apóstolo Paulo havia um lacre que selava, fechava, tornava inviolável a correspondência que era endereçada para alguém. Era uma cera derretida sobre o documento ou sobre o objeto fechado, que comprovava que aquilo não fora violado. Hoje temos as versões modernas em nossas aquisições. A empresa avisa: “ao receber o produto pelo correio, não aceite, caso o plástico, a caixa ou o adesivo estejam danificados”. As autoridades usavam nos lacres e nos selos uma estampa, um símbolo, que identificava quem estava enviando, qual a autoridade do remetente. Por fim, um selo estampado, marcado por uma autoridade vigente oficializava um ofício, uma escritura, uma declaração.

O texto bíblico diz que nós fomos selados pelo Espírito Santo. Ele foi enviado ao nosso coração e nos estampou, nos fez um sinal, grafou em nós o símbolo que significa “propriedade exclusiva de Deus”. Oh, profunda verdade! A graça de Deus nos salva para sempre, é inviolável, é eterna, uma vez que a autoridade de quem nos selou, de quem nos marcou, de quem nos estampou é a maior de todas! Quem nos separará do amor de Deus?

No entanto, este selo também funciona como “penhor”. Nas lojas de penhor se costuma deixar um objeto como garantia de que iremos pagar o empréstimo. O texto diz que o Espírito Santo em nós é o penhor que Deus nos deixou, prometendo nos redimir por completo no Dia de Cristo. Ele não apenas nos salvará exclusivamente por Sua graça, como deixou um sinal, um adiantamento.

A presença do Espírito Santo em nós funciona como “parcela de entrada”, isto é, a garantia de que o negócio está feito. Nós damos a entrada no preço de um terreno, de uma casa, de um carro, garantindo ao proprietário que pagaremos o restante. Assim Deus deu a nós o Espírito Santo, que é a garantia externa, sobrenatural, de que Ele completará a obra que começou: salvar-nos e levar-nos para o Seu Reino eterno de luz e de paz! Aleluia!

E como saber se o Espírito Santo está em nós? Seria através de barulho, de línguas ininteligíveis, de dons sobrenaturais? Não, pois tudo isso poderia ser simulado pelo enganador de nossas almas. O grande sinal de que Deus está em nós é a transformação que se dá quando nos convertemos ao Senhor. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. (2Co 5:17). Além disto, se o Espírito Santo estiver em nós, seremos conduzidos a reproduzir em nós o caráter e a personalidade de Jesus Cristo. Isto se chama “fruto do Espírito” e faz-se presente no coração transformado de todo crente. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio. (Gl 5:22) Isto não pode ser fabricado, não pode ser simulado. Se nós não vivemos como transformados pelo Senhor, alguma coisa vai mal com a nossa fé. Precisamos do selo do Espírito, da conversão genuína.

CONCLUSÃO

Assim como provemos aos nossos filhos tudo o de que precisam para uma vida confortável, digna e bem aproveitada em seu crescimento e maturidade, assim Deus nos concede em Cristo todo o suprimento espiritual e existencial necessário. Como miseráveis pecadores perdidos, Deus nos compra do poder do pecado, nos transforma interiormente e nos capacita de forma sobrenatural e definitiva, fazendo de nós Seus herdeiros, Seus filhos, Seus súditos, Seus adoradores, Seus mensageiros.

Em Cristo somos
1)  Abençoados
2)  Escolhidos
3)  Predestinados
4)  Motivo de louvor
5)  Redimidos
6)  Agraciados
7)  Revelados
8)  Herdeiros
9)  Selados e guardados!

Queira Deus, em Sua infinita graça, fazer de nós dignos cristãos que valorizam a obra de Cristo em nós. Queira Deus implantar em nós santo temor, santa consagração, santa convicção. E transformar-nos em portadores de boas-novas àqueles que ainda não conhecem o farto suprimento que temos em Cristo, autor e consumador de nossa fé.

Amém.

PALAVRAS GREGAS CONTIDAS NO TEXTO SELECIONADO:

Bendito – eulogetos
Em hebraico: bendito  - barukh
Bênção – eulogia
Espirituais – pneumátikos
Mundo – kosmos
Santos – hagios
Sem mácula/mancha/irrepreensíveis – amomo
Predestinou – prooridzo
Adoção – huiothesia
Vontade – thélema
Glória – doksa
Graça – charis
Fez agradáveis/concedeu gratuitamente – chairtoo
Amado – agapáo
Redenção/remissão – apolytrosis
Alma – haima
Ofensas – paráptoma
Sabedoria – Sophia
Prudência – phronesis
Mistério – mysterion
Revelar – gnoridzo
Beneplácito – eudokía
Propusera – protithemai
Tornar a congregar / reunir – anakephalaiomai
Cristo – Christos
Dispensação – administração – oikonomia
Plenitude – pleroma
Tempos / ocasião oportuna – kairós
Céu – ouranos
Terra –
Feitos herança – kleróo
Propósito – próthesis
Faz – energéo
Conselho / volição – boulê
Louvor – epainos
Palavra – lógos
Verdade – alethéia
Evangelho – evangelion
Salvação – soteria
Crido – pisteuô
Selado / marcado / estampado – sphragidzo
Espírito – pneuma
Promessa – epangélia
Penhor – arrhabon
Abundantemente – perisseuo